Se minha empresa falasse…

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Estavam todos, como de costume, sentados à minha volta.

Aquilo mais parecia um tribunal do que uma reunião de negócios. Estavam todos, como de costume, sentados à minha volta.

O contador, de óculos, bigode, olhando por sobre os óculos, coçando o bigode. Encarava o empresário como se o estivesse analisando. O empresário, empolgado, mostrava a planilha que havia usado para simular um novo cálculo para aumentar a depreciação das máquinas e reduzir ainda mais o lucro declarado – assim pagaria menos impostos… Já o advogado, nem recordo quantas vezes disse que “isso não dá para fazer”.

Aquele “trio parada dura” era o cenário cômico dos meus últimos dias. Sim, porque foram, de fato, os meus últimos dias. Eu fali.

Uma empresa falida não tem muita moral para falar, é verdade. Mas, a despeito da lição de moral, bem que foi uma trajetória engraçada. Tragicômica, para ser mais precisa.

Desde a minha fundação, quando o senhor empreendedor sócio cotista com mais cotas teve a ideia de iniciar o negócio, vivi dias fantásticos. E também sofri, sofri muito.

O outro senhor empreendedor, o sócio cotista com menos cotas, sempre duvidava da minha capacidade. Achava que eu não iria longe. Estava certo. Mas por certo também a culpa passou por suas mãos. Ele era o responsável pelas vendas. Tudo o que eu produzia tinha que ser vendido. Parece que o cara não sabia disso. Alguma estranha certeza o levava a pensar que todos queriam os meus produtos. Mesmo os que não sabiam, sequer, da minha existência. Mas não adiantava. Ele não confiava na empresa. A empresa era a culpada. Sempre fui… aos seus olhos.

Já o outro sócio empreendedor, o terceiro, o “laranja”, entrou na “jogada” – como ele dizia – somente para o senhor empreendedor com menos cotas, o sócio cotista que não acreditava em mim, sentir-se mais à vontade. Era só dizer de vez em quando que era questão de tempo. Que as vendas iriam deslanchar. Mas não foi suficiente. O desconfiado saiu da sociedade (perdi um dono) e aí este último passou a ser efetivamente conhecido como “laranja”.

Quase dava para ver isto no seu crachá, pois nada fazia pela minha sobrevivência; nada sabia a respeito de sobrevivência. Se soubesse, viveria melhor sua própria vida, sem a necessidade de toda aquela fala bonita sem utilidade.

Tenho de admitir que o senhor empreendedor sócio cotista com mais cotas, que ficou com mais cotas ainda, era o verdadeiro administrador. Mas não me gerenciava pensando em mim, não. (E afora minha carência de mais atenção, acho que a perda acaba sendo dele mesmo, pois, agora, onde vai trabalhar?)

Ele não escutava minha voz gritando para que pensasse na estratégia! Tanto menos quando, naquela última reunião, junto ao contador e o advogado, eu lhe sussurrava ao ouvido para que deixasse de lado os seus interesses de curto prazo.

 

Naquele dia, o bigode do contador chegava a tremer junto. O último balancete era claro: eu estava falindo.

O advogado, nem um pouco preocupado comigo, só falava dos bens do senhor empreendedor.

O contador, só falava dos meus. Só que dos meus “maus”.

O senhor empreendedor, não tinha jeito com meus números. Não entendia o que eu falava.

Ele até achava que era bom com números. Só que a matemática dele era muito imediatista. Não sabia ler o que os números diziam (pois este é um recurso que uso. Gosto de falar através dos números).

Ele achava que era uma questão de vender mais, mas não via que, quanto mais vendesse meus produtos, com aquela estrutura de custos, mais me sugaria e mais me atingiria. E foi o que aconteceu: numa grande venda para um grupo escocês, quase fiquei sem fôlego. Como eu conseguiria matéria-prima para funcionar, sem capital de giro? O cara nem pensou nisso. Só queria vender, vender.

Quando o contador deixou o bigode e resolveu abrir a boca, escutei pela primeira vez que ele poderia me abandonar. Bom, se ser mal tratada era ruim, ser abandonada seria pior ainda. O advogado concordou e eu passei a detestar aquele cara, que só queria saber de papéis e de leis, enquanto eu estava com sede (sem dinheiro).

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