Nasce uma nova disciplina…

Os enigmas da gestão oferecem desafios contínuos e que são desvendados paulatinamente na medida em que o mundo avança em diferentes momentos econômicos e sociais. A história da administração oferece-nos um panorama que se assemelha mais a uma sucessão de montanhas e planícies do que a um eterno prado limpo e horizontal. Os ciclos de altos e baixos refletem os tempos de certezas e incertezas a respeito do que é certo e sobre como gerir uma organização; ora estamos convictos de que possuímos as ferramentas adequadas, ora estamos inseguros diante de circunstâncias novas que demandam a revisão de conceitos, métodos e técnicas de gerenciamento.

É verdade que os ciclos têm se encurtado nos últimos anos. Se considerarmos as escolas da primeira metade do século XX – Taylor, Fayol e companhia limitada – veremos que suas ideias tiveram maior permanência do que as da segunda metade, impulsionadas pelos aprendizados das Grandes Guerras, por exemplo. Foram colinas longas de se percorrer antes de começar uma nova descida.

Suprimida a frenética (e fanática) mentalidade que se baseava em eficiência e competividade, à lá Michael Porter e Michael Hammer – quem sabe acompanhando as angústias da Guerra Fria – chegamos ao final dos anos 90 com ideias muito diferentes – as grandes consultorias, os japoneses, Senge, Mintzberg etc. – e o início de um ciclo que visava romper diretamente com o paradigma da velha e rígida corporação industrial, a começar com as obviedades de Tom Peters e os simplismos de Kaplan. Esse monte foi mais curto de escalar e de descer também.

Principiado o século XXI, debaixo dos ventos fortes de novas tecnologias que não param de abalar os limites e as possibilidades dos negócios, bem como sob a força de uma nova demografia que implica em repensar o valor das gerações e seu comportamento, parece que estamos novamente descendo uma montanha – e em alta velocidade.

É claro que os clássicos permanecem atemporais, sempre úteis em reflexões e, sobretudo, necessários para fundamentar qualquer mudança (este é o valor de um clássico). Assim, Peter Drucker não perde seu status, e quem sabe nem mesmo Weber ou Fayol. Mintzberg se eternizou, por mérito, e há desconhecidos pilares que precisam ser revisitados: Mary Parker Follet e Ketan Patel, para citar dois.

A questão, no entanto, é que estamos prestes a viver o nascimento de um novo ciclo o qual ainda procura a nomenclatura adequada para se definir. A nova montanha está sob neblina ainda. Os autores virão com o tempo e o tempo os testará para sabermos, num futuro próximo, se são válidos ou não. Os autores prescrevem à vontade, e também descrevem como podem. Mas não é a promessa nem o exame que fazem nascer uma nova disciplina dentro da história da administração. É a escalada corajosa da montanha que precisamos deflagrar.

Depois da montanha recente da gestão da inovação, toda escarpada e difícil de descrever, busca-se um novo ponto alto onde se possa ver a paisagem com mais clareza. Inovar é mantra que se ouve de todos, como se os papagaios rondassem um pico não muito alto, mas que permitiu um ponto visível para reunir o bando. Já percebemos novamente o abandono deste lugar e a busca renovada por um cume mais audacioso, mais elevado, mais belo.

Descer uma montanha põe em cheque aquilo tudo que se pensava e a procura ansiosa pela planície representa a tentativa de encontrar terreno estável para tomar decisões e fazer escolhas dignas para conduzir os grupos humanos. Nem a sociedade nem a economia estão favoráveis à estabilidade. Tudo é crise, tudo é mudança. E a velocidade põe em risco aquele que abandona a velha montanha, como uma criança descendo a lomba de bicicleta, muito rápido e em perigo de cair.

Eis que, talvez, se apresenta uma nova montanha para escalarmos – mesmo antes de chegarmos à planície, já a avistamos. Sua silhueta lembra a solidez da ciência, suas flores sugerem a beleza da arte, suas incrustadas grutas oferecem a profundidade da filosofia. Queremos, ao menos, que seja assim: convicções de um modo mais humano de gerir as empresas. Está prestes a nascer uma nova disciplina para orientar as reflexões dos líderes e gestores nessas próximas décadas. Gestão da Transformação pode ser o seu nome.

Transformar é mudar significativamente a forma sem alterar em nada a essência. E as empresas todas buscam reinventar-se hoje em dia, não?

Reestruturar tudo, sem deixar os sonhos de origem. Adaptar-se às novas realidades sem abandonar a identidade do negócio. Mudar a atuação sem abrir mão dos valores que fizeram aquela organização ser quem é. A Gestão da Transformação poderá responder a essas necessidades.

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Como expressar a melhor versão possível de uma empresa em tempos de aceleradas mudanças? Como desenvolver os líderes e os times capazes de pensar e agir estrategicamente no incerto e caótico cenário atual? Como alinhar propósito com ações cotidianas que possam satisfazer empregos e clientes numa experiência maravilhosa de trabalho e de vida?

Gerir a transformação é a resposta global para um conjunto de práticas que, aos poucos, se assomam e se avolumam à frente. Quem sabe a nova montanha seja uma construção disso tudo. Aos poucos vai ganhando corpo e poderemos ver seus detalhes.

Por ora, ao menos, podemos afirmar com entusiasmo: nasce uma nova disciplina.

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