Competitividade e plano de carreira

Nos serviços profissionais a gestão da carreira tem duas características paradoxais, porém fundamentais. Trata-se de uma combinação de aprendizagem e competição, ou apprenticeship tournament como diriam em língua inglesa. O equilíbrio entre essas duas ideias define o sucesso do plano de carreira de um negócio intensivo em conhecimento e muito da sua força competitiva.

O modelo clássico dos escritórios sempre aponta para a conquista de um patamar que confere um status bem significativo: chegar a sócio. Sem essa consideração, reter os melhores talentos pode ser impossível, já que as barreiras de entrada são muito baixas e todos podem sair e montar o seu próprio negócio. Para isso é que se promove uma constante formação, mentoria e acompanhamento dos mais jovens pelos mais velhos, bem como uma permanente avaliação para propiciar o crescimento dos melhores e uma “correção” dos piores – que, sim, muitas vezes leva à demissão.

Os autores do livro Tournament of Lawyers, Galanter e Palay, explicam que a meta de todo profissional é ser promovido como sócio do escritório. Em um artigo de 2003, Greenwood e Empson mostram que o estímulo em participar de trabalhos mais complexos também serve de atrativo para o crescimento em direção ao topo da hierarquia dos profissionais sêniores e um comprometimento com o negócio. Ou seja, não é questão apenas de salários e benefícios. Os trabalhadores do conhecimento são diferentes, portanto precisam de um plano de carreira diverso daquele das convencionais corporações.

Quais os critérios para selecionar e promover? A trajetória para o topo da carreira requer conhecimentos técnicos (e aprendizagem constante), experiência prática (com criatividade, não mecânica), iniciativa (mais raro do que parece), capacidade de trabalhar em equipe (dificílimo), prestígio entre os pares (construído ao longo do tempo), uma boa dose de inteligência emocional (leia-se maturidade), reputação perante os clientes (seriedade e companhia agradável) e certamente uma bela dose de autoconfiança (assertividade e resiliência). Ora, todos esses atributos são os mesmos que definem um escritório de sucesso! Assim, na medida em que desenvolvemos nossa equipe estamos automaticamente desenvolvendo a competitividade do escritório no mercado.

Se você não tem um plano de carreira claro, objetivo e funcional, comece já a se ocupar disso. Em serviços profissionais, dizer que as pessoas são o nosso principal ativo não é eufemismo, é a mais pura realidade.

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A estrutura dos serviços profissionais é anterior à burocrática organização industrial. Curiosamente, no entanto, serve hoje como modelo de vanguarda e inspira muitas fábricas a modificarem seu desenho organizacional para uma forma mais “moderna”. Engraçado. Mais engraçado ainda é quando vejo sócios de escritórios querendo implantar modelos industriais em seus negócios. Para quê? Bem, se o objetivo é perder competitividade, aí sim.

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