Narrativa estratégica

Uma maneira de entender a estratégia – sua concepção e aplicação – é mediante a conversa e a linguagem que os líderes e demais profissionais utilizam para descrever o negócio. Fazendo algumas perguntas, podemos compreender bastante coisa sobre a organização. As palavras dizem mais do que a semântica da frase, mas temos de aprender a escutar o que está nas entrelinhas.

Há organizações que não têm uma estratégia clara. Pode-se encontrar mapas, indicadores, quadros, slides sobre o assunto, porém se você questiona individualmente os principais líderes do negócio, verá que cada um diz uma coisa diferente. Cada um tem a sua história. Isso revela incoerência, divergências, inconsistência, dispersão etc.

Existem casos de incompletude. Há objetivos, intenções, projetos. Se você pergunta qual é a estratégia, existe uma semelhança nas respostas, contudo se limitam comumente a metas e objetivos. Falta na narrativa como pretendem “chegar lá”.

Em alguns casos há uma estratégia clara, mas não conseguem executar. Todos falam sobre onde querem chegar e também quais as iniciativas e projetos que estão em andamento para isso. No entanto, a prática do dia a dia é pesada, lenta, confusa, cansativa. Os comentários serão mais emocionais, com reclamações implícitas. Igualmente haverá críticas, então mais racionais que emotivas, mas o efeito é o mesmo: times de trabalho pouco motivados e confiantes de que “as coisas vão dar certo”. Serão contos de drama, você não vai ouvir nenhum épico.

Também aqui podemos encontrar situações em que alguns grupos conseguem realizar algo. Mas no conjunto perde-se energia (e dinheiro). E muito frequentemente gasta-se demasiado o tempo das pessoas para tentar entender o porquê da ineficiência. É como ouvir histórias cheias de explicação chata, com eventuais momentos de entusiasmo.

Raros são os casos em que encontramos uma narrativa clara e completa – você escuta uma história com início, meio e fim. As lideranças podem lhe explicar quem são, o que fazem, aonde querem chegar nos próximos anos, como estão trabalhando por isso, quais são os atuais desafios, que problemas têm tido no cotidiano, quais os hábitos estão sendo mais difíceis de mudar, que conquistas já podem comemorar e que tipo de ajuda precisam. Aliás, este é curiosamente um dos sintomas mais interessantes. Uma narrativa estratégica dificilmente prescinde de provações e dificuldades. Como ninguém é perfeito – muito menos uma organização inteira – os líderes conscientes não só sabem o que estão fazendo, como sabem também onde precisam de ajuda.

A atitude onipotente e autossuficiente normalmente é sinal de pouca inteligência. Um bom romance deixa margem para a criatividade e para diferentes interpretações. A ambiguidade é predicado natural do contexto da gestão e é normal deparar-se com alguma complexidade no texto.

—-

Imagine um velho índio contador de histórias. Ao redor da fogueira, na escuridão da noite, a única luz que temos é a que vem do fogo e da clareza das palavras do xamã. Este é um arquétipo psicológico que mora não somente no imaginário dos indivíduos, mas também no inconsciente coletivo. Descubra as histórias que se contam na tribo e você poderá inferir muita coisa sobre os caciques e a sua liderança.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s