Tautologia

O primeiro livro sobre administração de empresas a chegar no topo da lista dos mais vendidos foi In Search of Excellence, de Peters e Waterman. O mesmo texto que alçou Tom Peters – e outros que logo pegaram carona – à carreira de guru e palestrante, foi objeto de crítica de muita gente, incluindo a própria turma da McKinsey (empresa de consultoria onde os autores trabalhavam).

Peter Drucker, “o” guru da administração, considerou o livro banal. Stewart, autor de Desmascarando a Administração, disse que Peters só trata de obviedades irrefutáveis. Marvin Bower interviu no título, pois disse que no original (The Secrets of Excellence) pareceria que os segredos dos clientes seriam expostos. Duff McDonald, que conta a história toda, diz que apesar disso as vendas alcançaram 5 milhões de exemplares três anos após o lançamento. Parece que o momento da economia norteamericana foi contexto favorável à publicação, já que as pessoas estavam buscando uma alternativa à produtividade dos alemães e à invasão dos japoneses. [Digressão e sarcasmo: não seria melhor o título In Search of Hope, então?]

Tom Peters tornou-se o ícone da literatura de aeroporto. Ainda hoje vemos a necessidade das pessoas em dedicar tempo ao óbvio ou então àquilo que, se não chega a ser tolice, tampouco aprofunda o conhecimento.

É que o verdadeiro estudo dá trabalho? Claro, mas quem disse que os empresários já não têm suficiente trabalho para entender os problemas que têm? Ler livros, assistir palavras, escutar conselhos triviais vai ajudar em quê, afinal?! Se é só para passar tempo, melhor ler um gibi ou um romance. Descansar também é importante.

Mas quem sabe, dizer o óbvio não possa contribuir de algum modo? Talvez o estofo de alguns para dizer o que muitos apenas pensam, ajude de alguma forma. Parece que sim, minha experiência mostra que isso é verdadeiro na maioria das organizações. Neste caso não se trata da qualidade do conteúdo, mas da maneira com que é dito e quando é dito.

Assim como o timing da publicação de um livro ajuda nas vendas, o momento certo para tratar de um determinado tema entre os sócios e demais executivos pode fazer toda a diferença na vida de uma empresa. Os escritórios de serviços profissionais e os negócios intensivos em conhecimento em geral precisam, neste caso, adotar a concepção da moderna teoria da complexidade: tudo pode ser relevante, não deve-se excluir nada a priori; e vão emergir, pela confiança e franqueza, as soluções para os múltiplos problemas de estratégia que enfrentamos no mercado. Quem sabe aí, até mesmo Tom Peters tenha acertado?

Embora a maior parte das empresas que Peters aponta no seu estudo não tenham progredido como o esperado – a Business Week publicou um artigo com o título Oops! para indicar a fracassada profecia – seria exagero afirmar que tudo o que ele escreveu não passa de bobagem. As milhões de pessoas que o leram e as milhares que o assistiram é que podem avaliar o seu trabalho.

De minha parte, cada vez tenho menos atração pelos bestsellers. Quando me pedem uma dica de leitura, posso recomendar os menos tautológicos dos autores – Patel, Mintzberg, Morgan, Schein; Platão, Schopenhaur, Ortega, Morin. A originalidade continua a ser um critério de bom conteúdo, penso.

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Tautologia é uma argumentação pueril, redundante, e logicamente pobre. É dizer o óbvio e não acrescentar nada. O interessante é que o pensamento complexo, quando o é de verdade, integra também o que é simples. Agora, quanto ao simplório e banal… prefiro deixar nas estantes dos aeroportos.

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